terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Invertendo a Ordem da cidade.

São Paulo é a cidade da ordem. Talvez, em sentindo mais amplo, a cidade "das ordens": da ordem positivista, da ordem capitalista, da ordem do dominó - aquela famosa imagem, das peças de dominó em pé, enfileiradas: caiu uma, caem todas.
São Paulo é a cidade da ordem em que as pessoas que querem ficar paradas em degrau das escadas elétricas permanecem à direita, e quem tem pressa, sobe com passos largos os degraus à esquerda. Ouse parar no lado esquerdo de alguma destas escadas rolantes, e verá os nomes que usarão para se referir você.
São Paulo é a cidade da ordem, em que se uma destas escadas elétricas em uma das principais estações de metrô quebra, rapidamente um aglomerado desordenado se forma na estação, e tumultua embarques e desembarques.
São Paulo é a cidade que nasceu com ordem restrita, ordens de Vila, e cresceu, cresceu, cresceu... Ser um ponto estratégico entre o interior e o litoral fez com que crescesse mais, e mais, até ser referida nos dias atuais como "maior cidade do Brasil" e "coração financeira da América do Sul", e por ai vai.
São Paulo é a cidade em que foi fundado o Corintias, por um grupo de trabalhadores, em 1910 - quando a cidade ainda não era esse monstro que conhecemos hoje, e já deixava de ser a Vila de São Paulo de Piratininga. Esse clube, o Sport Club Corinthians Paulista, também cresceu e cresceu, também se enfileirou um pouco (é verdade) nas "ordens". Foi então que hoje (18 de Dezembro de 2012), em razão do time de futebol profissional deste clube ter conquistado o Mundial de Clubes, toda a ordem correu Tietê abaixo, para que (talvez vindo do Tamanduateí, que deságua neste Tietê) emergisse outra ordem: a ordem da festa!

São Paulo é a cidade que parou no dia 18 de Dezembro de 2012, pois o Sport Club Corinthians Paulista conquistou, com os pés, a cabeça e as mãos, pela 2ª vez, algo digno de se fazer uma festa de parar o mundo - ou, pelo menos, uma das maiores cidades do mundo.

***

Ao cruzarmos o Rio Tietê passando pela Ponte das Bandeiras, me recordei que naquele mesmo espaço da cidade - referido no início do Século 20 como "Ponte Grande" - se ergueu, pelos braços do povo, o que se teve como "Primeiro Estádio Corinthiano".
O verso "teu passado é uma bandeira, teu presente é uma lição", então, naquele espaço, naquele instante, com aquela massa e aqueles cantos, conseguiu costurar uma relação perfeita entre 1916 (e a conquista de um local físico nesta cidade cheia de ordens) com 2012 (e a conquista de um mundo perdido entre tantas ordens).

VAI CORINTIAS!










terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Em cinco anos.

Em Janeiro de 2008, não me recordo se no final ou se no fim, saiu o resultado do vestibular, e eu havia sido aprovado para cursar Ciências Sociais na Unesp da Marília. Ótimo! Na verdade era uma notícia excelente, liguei no rádio de casa um CD com o hino do Corintias e sai para comemorar, beber, vibrar etc.
É bem verdade que me mudei de cidade, entrei na faculdade e, pelo fato de ser um Corinthiano exacerbado, tão logo me tornei um pouco a piada da turma: disputaríamos a Série B, enfrentaríamos o time de Marília, o MAC. Porcos, 5ão Paulinos, Sardinhas e os próprios Maqueanos faziam piada com o Corinthiano fanático recém chegado às Ciências Sociais.
Em 2008 chegamos à final da Copa do Brasil, até a perdemos, mas já dava pra ver que coisas boas viriam pro Corintias. 
2009 chegou, Campeonato Paulista vencido de forma Invicta, Copa do Brasil com muita garra.
Passamos o Centenário em branco, perdemos uma Libertadores, mas não deixamos a peteca cair. Devo dizer, 2010 foi meu terceiro ano de faculdade, o mais difícil dos 5!
Em 2011 encerrei a licenciatura dois dias antes de nos sagrarmos Penta Brasileiros. 
E agora, em 2012, acabo de voltar da apresentação de meu TCC, que conclui formal e oficialmente a minha formação enquanto Bacharel em Ciências Sociais. 

Mas o que eu realmente tenho a dizer pra vocês?
Entrei na Faculdade às vésperas da estréia do Corintias na Série B, e concluo a Faculdade na véspera de nossa estréia no Mundial.

VAI CORINTIAS!


A Banca de Professores, que avaliou o trabalho e lhe conferiu a nota máxima: 10.
VAI CORINTIAS!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

"O mundial de 2000 não vale".

Sabe esse papinho de que "o Corinthians não é campeão Mundial"? "Aquilo que o Corinthians ganhou não era Mundial"? Ele não é tão novo quanto vocês acham não.


No princípio de sua história, à época da Fundação, em 1910, o Corinthians era um "Clube de Bairro", dos Trabalhadores do Bom Retiro. Começou a disputar partidas na várzea, perdeu uma, ganhou a segunda, a terceira, a quarta e, em pouco tempo,
 se tornou o "Galo Brigador das Várzeas", como o Filipe Martins Gonçalves bem indica em seus textos.

1913 chega e o Corinthians já havia conquistado todas as várzeas Paulistanas e até algumas pelo interior (Campinas, Jundiaí). Tendo ganhado tudo na várzea, restava querer entrar no Futebol Oficial: "vamos pleitear aquela vaga na Liga Paulista de Futebol", a liga que congregava o Futebol Oficial da época em São Paulo.
O Corinthians ganha o "torneio" que daria acesso à vaga, mas a validade desta conquista é questionada por alguns Clubes e diversos jornais da época: "como um time de trabalhadores do Bom Retiro poderá jogar contra nós em nosso campo de grama tão verde do Velódromo?", "como este time chega em nosso campo e derrota nossos clubes de famílias tradicionais?", "este clube não pode ter sido campeão de verdade".



Passam-se cento e muitos anos, e o mesmo discurso é mantido.




terça-feira, 10 de julho de 2012

Vencemos, e agora?

Há algum tempo atrás, um ou dois dias antes da conquista do quinto Campeonato Brasileiro, alguém (realmente não me lembro quem) me perguntou: "Coiso, quanto tempo dura a alegria pela conquista de um título?", de pronto, eu não soube responder. A pessoa, ironicamente sugeriu: "uma hora, duas, três? Um dia ou dois?". Respondi com outra pergunta: "quanto tempo dura a tua vida?", e o diálogo se encerrou. 
Não sei dizer "quanto tempo dura a alegria por um título", talvez por que a alegria não seja 'um título', mas sim uma história, construções, repletas de histórias, pessoas, lugares, passagens e, claro, títulos. Não faz sentido querer mensurar essa alegria; é alegria, e ponto.
Para alguns jornalistas/eiros termos conquistado essa tal Libertadores da América (que eles sempre disseram ter um sabor especial) vai "desvalorizar a competição", ou seja: será que o sabor vai acabar? Será que somos tão grandes assim a ponto da nossa alegria acabar com o luxo e valor de uma competição que eles sempre lustraram com óleos de peroba? 
O meu pai, que do ano passado para cá tem pegado no meu pé com "a minha forma de encarar o Corintias", nem comemorou tanto assim o título, para ele "é a primeira de muitas", não precisa comemorar 'desse jeito'. Ele também acha que a emoção que ele me viu saborear em casa ao lado da minha mae, bem como, as centenas de Corinthianos que vimos chorando pela televisão, é um exagero, algo desmedido. 
(Temos sorte da pergunta "quanto tempo dura a alegria pela conquista de um título?" não ter sido feita a ele, a resposta - que eu presenciei na prática - não foi nada empolgante).

A Anti Corinthianada decretou que tínhamos que vencer, muitos comemoraram a conquista se virando mais a eles do que a nós - me impressionou a quantidade de material que circulou pelas redes sociais em que "chupa antis" vinha em maior tamanho do que "Aqui é Corinthians" - mas muitos também comemoraram por nós, comemoraram pela história, pela construção, pelas pessoas, lugares etc, etc.

Talvez, a alegria por um título dure enquanto durar a certeza da nossa participação na história...

Vencemos, e agora? Agora comemora!
Celebremos o Corintias!
 
                                                                            ***

Assisti ao jogo na casa dos meus pais, na região da Freguesia do Ó, após vermos - pela TV - os jogadores receberem a taça e as medalhas, nos deslocamos para o Largo da Matriz, tradicional praça para comemorações de títulos futebolísticos - é tradição: "ver erguer a Taça, e subir para a Praça". Porém, esta recebeu um cordão de isolamento formado por PM's em sua entrada principal. Os Corinthianos que, por hábito e tradição, se deslocaram de suas casa até lá, eram recebidos por policiais nada amistosos. O jeito, então, foi nos concentrarmos em um cruzamento próximo dali, em frente a um colégio e alguns bares.
Passado um tempo, dois policiais passaram por ali de moto, passaram e retornaram. No retorno, borrifaram spray de pimenta em um dos grupos de Corinthianos, o que ocasionou a saída de muita gente dali. Meu pai, bravo com a situação, disse que voltaria para casa e decidi o acompanhar. 
Foi então que presenciamos mais um espetáculo da PM paulista: descer o porrete em um grupo que discutia à calçada, e gerar uma briga e um tumulto enormes, desnecessários e que provocaram, por fim, o fim de uma festa que poderia ser tão bonita...
Abaixo, algumas fotos de quando pudemos festejar:






































terça-feira, 3 de julho de 2012

A todos que estiverem no Pacaembu.

Hoje estava nas Perdizes, participando de um congresso, e deveria ir ao Museu do Futebol, logo, teria de caminhar até o Pacaembu. Meus intuitos com esta movimentação eram estudiosos (a mostra de filmes antropológicos sobre futebol). 
Eram.
Logo que cheguei sob os Arcos do Portão Principal, notei que o mesmo estava aberto para observação do Estádio, e julguei por bem entrar para deixar algumas boas energias minhas por ali, para o jogo que ocorreria 30 horas adiante.
Mais ou menos uma duzia de pessoas estavam apoiadas na grade que delimitava o espaço da visitação (no vão de entrada se alongando até a segunda escadinha das arquibancadas verdes, ficando a uns 4 metros do alambrado), apenas eu e outro não vestíamos camisas do Corintias. Estávamos todos apoiados na grade observando o gramado, as arquibancadas vazias, pessoas trabalhando com cabos, limpando o Estádio, preparando câmeras, catracas, montando o 'pódio' etc.
Conversei com um e outro sobre preços de ingressos e estar ali para fazer orações e coisas do gênero, e percebi que havia passado uma hora ali, apoiado na grade. Notei que os filmes já iam começar, e me arrumei para sair do Pacaembu.
Após três ou quatro passos, estava de frente para a saída do Estádio, parei, fechei os olhos e olhei para cima, apenas os abri pois as lágrimas pediam passagem: naqueles instantes de olhos fechados lembrei-me de tantos momentos no Pacaembu, de tantas pessoas com quem assisti jogos, de tantos jogadores que aplaudi e xinguei, de tantos placares que me fizeram vibrar etc.

Por isso estou escrevendo este texto, ele é dedicado a todos vocês que amanhã estarão no Pacaembu, embora seja redundante, ele é um pedido a todos vocês:
Gritem por mim;
Gritem por meu pai, responsável pelas minhas primeiras idas ao Pacaembu;
Gritem pelo pai do meu pai, que faleceu a três meses, e estava - junto de meu pai - de mãos dadas comigo na primeira vez em que passei pelos Arcos do Pacaembu;
Gritem pela minha mãe, que já encarou tempestades e insolações (literalmente) para que pudéssemos estar em um jogo.
Gritem por todos nós que não estaremos no Pacaembu!

VAI CORINTIAS!


terça-feira, 12 de junho de 2012

Vira pra lá e pra cá.

Cansado (de alma e mente) me deitei para dormir por volta das onze da noite, cedo.
Tão logo estava na horizontal, quieto e calado no silêncio de meu quarto, recordei-me do Gol de Paulinho no último jogo contra o vascu. O corpo todo arrepiou, lembrei-me da comemoração na sala de casa, dos pontapés no sofá e da alegria (e quizumba) que se criou e foi partilhada nas ruas da região naquela noite. Lembrei-me de atender o telefone ao fim da partida e ouvir minha mãe aos berros vibrando pela vitória, e de como berramos juntos AQUI É CORINTIAS CARALHO.
O corpo todo estremeceu, e constatei que dormir, naquela posição seria difícil. Então, virei pra lá.
Quando virei para lá, após o corpo se adaptar novamente ao colchão e a coberta já estar cobrindo plenamente este corpo, lembrei-me de outro fato.
O sôfrego zero a zero contra os porcos no começo do último Dezembro, que, combinado com outro empate, fez-me abrir a porta do apartamento em que morava, socar a porta do vizinho Corinthiano chamando-lhe para comemorar-mos juntos a conquista do Penta Campeonato Brasileiro. Lembrei-me da Avenida em Marília, tomada por Corinthianos e mais Corinthianos, festa, fogos, gritos etc.
Arrepio, tremedeira e virei pra cá, constatando que seria impossível dormir naquela situação.
E assim foi, até constatar que já era quase uma da manhã e não conseguiria dormir tão rapidamente.

É assim, desde a noite de 12 de Maio de 2001, véspera da semi final do Campeonato Paulista daquele ano contra a mesma sardinha que enfrentaremos amanhã.

E hoje, já prevejo outra noite infernal.
VAI CORINTIAS!

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Por quê "Doutor Sócrates"?


Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, ou apenas Sócrates, apareceu para o Mundo em razão do que fazia com suas pernas finas e altas quando estava com a bola de futebol nos pés. Era um jovem rapaz alto e magro, que se tornou Doutor em Medicina no ano de 1977, realizando a formação na área ao mesmo tempo em que se profissionalizava como jogador de futebol.

Durante um período da Ditadura Militar (1964/1984) era, então, um estudante de medicina que se profissionalizava como jogador de futebol, respectivamente, pela USP de Ribeirão Preto e pelo Botafogo da mesma cidade. Na Universidade tinha relevante presença nas discussões e movimentações Estudantis.

Findado o período de estudos, em 1978 fora para a Capital do Estado de São Paulo, não para ser médico, e sim para defender as cores do Sport Club Corinthians Paulista. Conquistou o Bicampeonato Paulista em 1982/83, período em que encabeçou, juntamente com outros jogadores e sujeitos do Clube, o movimento conhecido como "Democracia Corinthiana", em que as decisões referentes ao Futebol Profissional do Clube eram decididas com votos iguais entre jogadores, comissão técnica, conselheiros, presidente etc.

O fim do Regime Militar era discutido amplamente entre os setores críticos da sociedade, e, com a movimentação de Sócrates indicada acima, a pauta se ampliou e alcançou as massas espectadoras do futebol. Não só a Torcida Corinthiana, como todo o público futebolístico Brasileiro. Sócrates nunca foi ídolo de uma só Torcida, sempre foi respeitado e ouvido por Grupos Torcedores das mais diversas cores e Estados, tanto que teve importante papel na popularização e ampliação das discussões para as "Diretas Já" em 1984.

Por que um grupo universitário com foco na atuação esportiva, artística e, em razão disso, cultural, homenagearia Sócrates, o "Doutor da Bola", em seu nome? Pois ele não era nem só Doutor, nem só Jogador, nem só um jovem politizado: era, expunha e brigava por tudo isso, tal qual estamos nos propondo a discutir aqui nesta Unesp de Marília.

"Arte, no futebol, nunca foi adjetivo",
Doutor Sócrates.

Texto que fiz para expôr ao corpo Discente da Unesp de Marília, explicando quem foi o homem que nomeia o Coletivo que surge dentro do Campus.